“Vida é cor e confusão. Vida é som e paixão.”

Continuando os assuntos tratados na palestra – primeira parte está no post anterior.

Entramos, então, nos dados referentes às tentativas de suicídio.

  • 56% morrem na primeira tentativa;
  • 40% dos que tentaram, tornam a repetir ao longo da vida;
  • 25% fazem uma nova tentativa dentro de 12 meses;
  • 12% acabam se suicidando dentro de 10 anos;
  • 8,9% dos que tentaram, morrem dentro de 5 anos por outras causas;
  • 1/3 dos que tem vontade de tirar a própria, mantém a ideia em mente por 10 anos.

Apenas uma breve conclusão dos dados acima: dado que grande parte dos que tentaram desistem ao longo do tempo, é possível notar que há a possibilidade de tratamento e que as ajudas podem sim gerar resultados positivos. Há sim uma parcela daqueles que tentam mais de uma vez, porém, é possível notar uma certa impulsividade nos atos, ou seja, que nem todas as tentativas foram planejadas e que há aqueles que tentaram, mas que, na verdade, não queriam de fato. Eis que nota-se ainda mais espaço e necessidade de prevenção.

Os métodos mais comuns identificados são: intoxicação exógena, enforcamento, queimaduras, armas de fogo, arma branca, traumas em acidentes automobilísticos, jogar-se de locais elevados ou em trilhos de trens e metrôs. No Brasil, o método mais comum é por enforcamento. Quanto a acidentes automobilísticos, é difícil medir a recorrência. Aliás, diversos casos que acidentes que acabaram em mortes podem se enquadrar em casos de suicídio, porém não são contabilizados como por falta de dados concretos. Ou seja, os números de mortes por suicídio podem ser bem superiores aos contabilizados por conta de casos semelhantes a esses.

As formas de tentativas variam conforme o gênero e a cultura das pessoas e o manejo e atendimento a essas pessoas demandam uma habilidade e preparo do médico do serviço de emergência por se tratar de um assunto delicado e de difícil condução e identificação.

Por volta de 94% dos casos de suicídio são associados a distúrbios mentais, porém é importante ressaltar que tal distúrbio não uma condição suficiente, apesar de necessária, para o comportamento suicida. Como já mencionado anteriormente, não há uma regra para classificar um indivíduo como um suicida em potencial, porém há algumas dicas para tal, como a identificação de distúrbios mentais. Quanto maior o número de distúrbios mentais identificados, maior a chance de suicídio, porém, é sempre importante não rotular os indivíduos para que não piore o quadro. Mas é importante ficar alerta para todos os sinais.

Em 2008 a OMS divulgou dados a respeito de suicídio e doenças mentais em populações gerais e os dados são os seguintes:

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Assim, nota-se que o principal transtorno identificado foi o de humor. A palestrante alerta que pacientes que apresentam mais de um transtorno, apresentam-se com grande potencial de suicídio. Nota-se também a baixa porcentagem de pessoas que não tiveram um diagnóstico definido, ou seja, não é comum ficar sem uma resposta para os casos de suicídio, o que abra ainda mais espaço para o alerta da prevenção.

A depressão apresenta diversos fatores associados ao seu desencadeamento, tais como:

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O ambiente e o abuso de substâncias apresentam, ainda, suas particularidades.

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O ambiente pode ser separado em abusos tanto físicos quanto sociais capazes de desencadear uma depressão. Já o abuso de substâncias apresenta um ciclo ou ainda a dificuldade de identificação da ponta de origem, ou seja, a depressão pode ter sido causada por um outro elemento e desencadear um abuso de substâncias como forma de fuga e, assim, piorar o quadro de depressão, como também o uso de substâncias – seja por lazer – pode desencadear uma depressão.

Captura de Tela 2017-06-30 às 11.39.05

Com isso, é possível listar algumas alterações patológicas da depressão em grandes grupos, tais como:

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Vale ressaltar que tais alterações consideram tanto para o aumento de tais características quanto para a redução, ou seja, em caso de sono, por exemplo, considera-se tanto o excesso de sono como a falta dele. Normalmente as pessoas “rotulam” como um quadro depressivo a falta de apetite, excesso de sono e a lentificação. Porém, o oposto também pode ser considerado como um quadro depressivo, como o excesso de apetite, a falta de sono e muita agitação. É importante sempre “comparar” com os comportamentos anteriores às mudanças identificadas e não apenas rotular ao acaso. Além disso, há também alguns pontos que podem servir como sinais para o risco de suicídios, como:

  • Desejo de morte e/ou ideação suicida;
  • Culpa excessiva;
  • Humor deprimido;
  • Anedonia (falta de prazer);
  • Menosvalia;
  • Problemas de concentração;
  • Relato de depressão pelos familiares;
  • Tentativa prévia de suicídio.

Há pontos que podem ser considerados como sinais de risco iminente de suicídio, ou seja, aqueles ainda mais graves.

Captura de Tela 2017-06-30 às 12.08.14

Sobre o Jogo da Baleia Azul e da série do Netflix 13 Reasons Why, a palestrante levantou pontos que tenho repetido com alguma frequência: PELO MENOS ESTÃO FALANDO. Deixando um pouco de lado a forma como abordaram o tema – muitas críticas quanto ao não seguimento do manual de orientação da OMS para a mídia – tanto a série quanto relatos sobre o jogo tem derrubado, ainda que pouco, a falta de conhecimento sobre o assunto, tem aumentado a atenção sobre o suicídio e tem trazido mais relatos à tona, fazendo com o que as pessoas tomem conhecimento de que casos de suicídio são sim muito mais comuns do que imaginamos, infelizmente. Com isso, torcemos e lutamos para que os próximos passos sejam de quebra do preconceito e do tabu e também do estigma, do sigilo e, principalmente, da falta de conhecimento.

Para tanto, a professora insiste na grande necessidade orientação de todos para saber como lidar, como tratar e, acima de tudo, como prevenir o suicídio. Com isso, ela ilustrou da seguinte forma:

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O que faz a diferença entra decisão de vida e morte não é só a presença de fatores de risco mas também a presença de fatores protetores que fortalecem as estratégias de enfrentamento. Os fatores protetores podem ser resumidos em uma palavra: RESILIÊNCIA, que podem ser identificados nos seguintes contextos:

  • Senso de valor pessoal;
  • Confiança em si mesmo e em sua realização;
  • Buscar ajudar quando encontrar dificuldades;
  • Receber conselho frente a escolhas importantes;
  • Abertura para experiências e soluções;
  • Adoção de valores e tradição cultural específica;
  • Senso de propósito com sua própria vida;
  • Flexibilidade para aprendizagem;
  • Habilidade para comunicação.

Por fim, foi intensamente mencionado a questão da prevenção.

O suicídio deve ser tratado como PROBLEMA DE SAÚDE PÚBLICA e, para tanto, há a necessidade de uma capacitação das equipes de saúde para que haja uma melhora na identificação, abordagem, manejo e encaminhamentos dos pacientes e, como consequência, teríamos uma redução na taxa de suicídio.

Algumas ações para prevenção na comunidade:

  • Educação e conscientização;
  • Treinamento de educadores para ajudar na identificação dos casos;
  • Incentivar as diversas Igrejas e reconhecer a necessidade de busca por ajuda e tratamentos com profissionais;
  • Rastreamento;
  • Controle dos meios e acessos a eles;
  • Treinamento de bombeiros e policiais;
  • Instruções para mídia e não proibição de abordagens a respeito;
  • Incentivo ao CVV – Centro de Valorização da Vida.

Para encerrar, ela mostrou uma imagem de uma ponta na Coréia do Sul, em Seul, onde há diversos relatos de suicídios. A Samsung espalhou ao longo da ponte diversas mensagens em LED para que as pessoas que estivessem passando por ali com algum pensamento ruim os lessem e, quem sabe, desistissem de tirar a própria vida. Que a iniciativa da Samsung siga de exemplo não só para outras empresas, mas também para outras pessoas.

Captura de Tela 2017-06-30 às 12.40.44

Deem uma olhada no vídeo abaixo. Ele é curto e vale a pena!

https://www.youtube.com/embed/LYMWPSKpRpE

Ao final da palestra abriram para perguntas, fui a primeira a fazer. Com a voz trêmula por conta do choro preso diante de tantos dados, perguntei sobre o posicionamento dos planos de saúde, se há alguma iniciativa/previsão/esperança. Hoje em dia são poucos os planos de saúde que cobrem o tratamento médico em caso de tentativa de suicídio. Ou seja, ou você é tratado em um hospital público mesmo tendo o melhor dos melhores planos de saúde, ou você paga pelo seu tratamento em um hospital particular ou você não entra nas estatísticas de casos de suicídio, o que faz com que os números não reflitam a realidade e, consequentemente, não haja uma conscientização a respeito do assunto, fazendo com que o tabu se eternize.

A palestrante respondeu que há uma junta de médicos que lutam por isso, pois concorda comigo que não faz sentido tal posicionamento. Ressaltou que é preciso que haja cada vez mais uma comoção social para que haja uma pressão sobre os players para que este cenário mude. Inclusive há um dia de conscientização do suicídio que, como todos os outros dias de alguma coisa, é apenas uma data simbólica para que tomemos atitudes que deveriam ser lembradas todos os dias de nossas vidas: VAMOS PREVENIR! O dia de conscientização da prevenção do suicídio é o dia 10 de setembro, e há o chamado SETEMBRO AMARELO. Coincidentemente, é o mês do meu (primeiro) nascimento.

Caso tenha ficado alguma dúvida, caso alguém queira entender melhor alguma informação ou queira deixar o ponto de vista e afins, estou sempre à disposição.

Música do título: Vida – Gilberto Gil

Centro de Valorização da Vida – Contatos: Chat   |   Telefone   |   Skype   |   E-mail   |   Endereços

 

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