Hey! Teachers! Leave us kids alone!

Hoje de manhã recebi uma mensagem do meu primo contando que um garoto da sua antiga faculdade havia tentado se matar, além de ter sido o terceiro caso na faculdade em pouco tempo. Depois do ocorrido, o garoto escreveu uma carta que, entre outros ótimos pontos, mencionava como a faculdade lidava com a saúde mental dos seus alunos. Isso me fez querer contar como foram os meus anos de escola após o ocorrido.

Fui a primeira da turma uma vez na vida, mas nunca fui das piores, estava sempre ali com uma gordurinha a mais que o necessário e sempre estive satisfeita com isso. Desde de muito pequena sabia que iria estudar no Colégio Bandeirantes, um colégio bem tradicional de São Paulo. Mas, como só tinha a partir da 5a série, meus pais pesquisaram qual era o colégio “preparatório” para o Band, eis que vou para o Barifaldi. Apesar de não ser nenhuma nerd, era meio Caxias, assumo. Me lembro de um dia, quando a minha mãe estava viajando, eu estava passando alguns dias na casa dos meus padrinhos e primos, e tinha lição de casa para fazer. Mas, quando fui pegar o material para fazer, notei que havia esquecido o caderno no armário da escola. E agora? Eu estava a 17km de distância da escola, mas deixar de fazer a lição não era uma opção – na minha cabeça doidinha. Liguei para o meu tio e ele foi me levar até o Barifaldi para depois voltar para a casa dos meus padrinhos. Doida doida. Me lembro só de duas passagens que me fizeram levar bronca no Barifaldi, o suficiente para me deixar bem chateada na época. A primeira foi que a professora me pegou passando bilhetinho na aula. Quem nunca? A segunda foi quando fui chamada na diretoria porque eu estava conversando muito com o pessoal da 8a série (e eu estava na 4a).

Enfim, sem mais Barifaldi, partiu Band. Como esquecer a sua primeira nota vermelha? Chorava igual a um bebê. Lembro da minha mãe falando “vai chorar só na primeira, depois não vai dar nem bola”. E não é que ela – obviamente – tinha razão. E, obviamente de novo, que a nota vermelha foi em matemática, professora Inês Vilhena, ruiva, tia do Paulinho Vilhena (informação super relevante, não?!). Meu problema com nota veio só ao final da 6a série com a recuperação que eu já contei. Ainda na 5a série me lembro que uma menina se jogou do 18o andar, pela janela do banheiro da sua casa. O mais bizarro é que houve zero comoção a respeito na época. Não sei como foi entre o pessoal da turma dela, mas para as demais turmas, nada foi falado. Foi realmente como se alguém tivesse quebrado a perna. Tempos depois, essa menina era eu.

Eu não sei até hoje como isso foi tratado de fato na minha turma, lembro de um ou outro comentando que ninguém falou nada. Ainda acho bizarro não “usar” um caso desse de uma forma benéfica, afinal, quando tem surto de dengue, há comoção para aprender a evitar. É um tal de “vira garrafa, tira pratinho, limpa pneu” o dia todo. Quando tem casos de AIDS em evidência é “use camisinha” em casa esquina (ainda bem). Quando alguém tenta se matar, nada aconteceu? Será que é muito difícil perceber que isso é fruto de uma doença? Caso alguém ainda não tenha entendido, vai em caps: DESPRESSÃO É UMA DOENÇA!! Precisa de tratamento, se não, mata!

Mas, talvez pior do que simplesmente ignorar o ocorrido comigo, alguns coordenadores chegaram a chamar algumas pessoas que conviviam comigo para fazer algumas perguntas, meio interrogatório do tipo “qual foi a sua participação nisso?” (não com essas palavras, eu acho). Zen, era esse o nome do que eu mais me lembro de ter feito isso. Como que você chama os amigos de uma menina de 12 anos que está na UTI por ter tentado se matar e fala uma coisa dessas? Nunca vou entender.

Como já falado, eu havia ficado de recuperação ao final da 6a série e tentei me matar exatamente no dia em que soube disso. Ou seja, eu não tinha passado de ano ainda, porque não fiz a prova da recuperação. Ah, lembrando, faltava meio ponto na média para eu passar. Enquanto eu estava no hospital, ou melhor, na UTI, os coordenadores do Band falaram para os meus pais que eu tinha que fazer aquela prova de qualquer forma. Eles explicaram que eu não tinha como, pois estava na UTI. E qual a resposta deles? Tudo bem, a gente leva a prova até ela. Sem comentários, né. Quando, indignado, meu pai perguntou se eles não estavam entendendo a situação, a resposta foi “isso é comum por aqui, quase todo ano algum aluno ou se mata ou tenta”. Com a maior naturalidade do mundo! No final, depois de muitos pitis e afins, acabei não precisando fazer a prova. Mas “no final” eu digo depois de muito tempo, inclusive cheguei a voltar às aulas e eles insistindo nessa maldita prova.

Quando tive liberação médica para voltar às aulas, meus pais tentaram me convencer a ir para outro colégio, mas eu insisti em voltar para o Band. Não que eu gostasse de lá, não cheguei nesse nível de sadomasoquismo, mas seria mais fácil. Lá todos já sabiam o que tinha acontecido e, querendo ou não, isso facilitava um pouco, uma vez que teria que ficar mais alguns meses sem andar. Meus amigos foram uns fofos quando voltei às aulas e os bedéis então, sem comentários. Atenciosos, simpáticos, prestativos. Afinal, eles empurravam aquela cadeira de rodas para cima e para baixo. Como estava de cadeira de rodas, tinha uma mesa “especial” para mim colada à mesa dos professores. Mas, por ser “especial”, era gigante e cabia mais uma pessoa ao meu lado. As vezes trocava quem sentava lá, mas tinha uma que estava sempre ali comigo, Camila. Afinal, não era qualquer um que queria sentar no mano a mano com os professores.

Perdi bastante aula no começo pois ainda não poderia voltar para à escola, mas perdi muitas aulas também por um outro motivo. Falta de estrutura da escola. Haviam algumas aulas que eram em outras salas e, quando tinha aula no tal bloco E, perto do ginásio e da cantina, não tinha como eu ir porque a cadeira de rodas não passava por lá. E o que acontecia? Eu ficava sozinha na sala original esperando o pessoal voltar. E sim, levava falta.

Com a minha volta, os professores resolveram reparar em mim. Reparar em tudo e, como tinham zero tato para isso, surtaram. Meu pai mora fora de São Paulo e, a cada respirada minha, ligavam para ele para ele ir até a escola conversar. Um dia era “a Carla está estranha, ela está quieta demais”. Depois “a Carla está estranha, ela está simpática demais”. Ok, entendo que eles estavam tentando pegar “sinais” e repassar para os meus pais, mas estava fazendo tudo errado. Em resumo, depois de muitos comentários estranhos para os meus pais e me tratando como se eu fosse um bicho estranho em aula, eu me tornei um monstro que eles claramente queriam longe. Decidi sair, mesmo que ainda estivesse no meio do ano letivo. A única coisa que eu queria era ser tratada como uma aluna normal. Já que eles não aproveitaram o assunto para alertar os demais pais e alunos de uma forma agregadora, não era me tratando como um bicho estranho que iriam resolver algo.

Naquela época eu estava ainda mais apegada à minha família – tios, primos e amigos dos primos. Então comecei a pedir para a minha mãe para nos mudarmos para a Zona Norte, onde a grande maioria mora. Para “forçar a barra”, quis estudar no colégio em que um primo estudava, o Colégio Jardim São Paulo. Foi um desastre, eu odiei a escola. Mas conheci muita gente legal, pessoal leve, tão diferente do Band. Fiz o que tinha que fazer, terminei o ano de uma forma tranquila e vi que ali também não queria ficar. Minha psicóloga indicou um colégio completamente diferente dos que conhecia, o Oswald de Andrade. É um colégio do modelo construtivista, praticamente sem provas, muitos trabalhos em grupo, muitas aulas de música, circo e afins. Foi demais. Cantei The Doors na apresentação de final de ano, toquei Beatles, fizemos a trilha sonora inteira do filme Nosferatu e foi, de longe, o ano que mais aprendi de fato as matérias dadas, não era nada na base da clássica decoreba. Foi neste ano que me formei em primeiro lugar da turma e rodeada de elogios dos professores (isso era novidade). Nem lá nem no Jardim São Paulo eu contei para todos os motivos das minhas cicatrizes, e sim, por medo do preconceito.

No meio na 8a série, no Oswald de Andrade, minha perna piorou e tive que voltar a usar muletas. Mas a minha sala era no andar de cima e não tinha elevador, então a minha mãe foi até a escola conversar com o coordenador, o Eduardo, e contou a história toda. No dia seguinte ele me chamou para conversar e foi um fofo. Ele disse que mudaria a minha turma de lugar e que inventaria uma desculpa para isso, mas que me entendia completamente, ainda disse “afinal, quem nunca pensou em fazer isso que atire a primeira pedra”. E assim foi feito. Perto do final do ano uma ex-aluna da escola, da minha idade, se matou. Todos da minha sala eram muito amigos dela, estavam todos completamente arrasados e aproveitei a situação para contar a minha história. Falei que não era para ninguém ali julgar os motivos dela, que ninguém viveu a vida dela para saber pelo o que estava passando. Obviamente todos tem o direito de viver o luto, a angústia, mas não tem o direito de julgar as escolhas e sofrimentos dos outros. Foram todos uns amores comigo, de alunos a professores. Ah, e sim, os professores comentaram sobre o caso em aula, sem julgamentos, sem tabu, acolheram os amigos dela de uma forma confortante.

Mas, com o colegial batendo na porta, vestibular por ali, a água bate na bunda, né. Aulas de música e de circo eram incríveis, mas precisava da maldita matemática para o vestibular, e não era ali que teria o que precisava. Fui então para o Colégio Etapa. Aquele lugar pacífico e tranquilo onde as salas e corredores eram apertadíssimas, tinha prova todos os dias, sim, todos os dias, e a cada dois meses nos trocavam de sala baseados num único quesito: notas. Lembro de um dia que uma menina, que estudava lá há alguns anos, foi mexer no celular dela e a página principal era o site do Etapa onde eram lançadas as notas, e eu perguntei por que ela tinha aquela página como principal. Ela riu e disse “daqui uns dias você vai entender”. Claro que entendi, todo dia uma prova, todo dia uma nota, todo dia um cálculo de média para saber para que sala iria nos próximos meses. Quanto à minha história, no Etapa e na GV foi tudo bem parecido. Como esse mundo é minúsculo (ou ainda “como a renda é pessimamente distribuída”), tanto no Etapa quanto na GV haviam diversas pessoas que já me conheciam, se não pessoalmente, por nome, pelo o que tinha acontecido comigo. Afinal, foi uma aluna do Band e, querendo ou não, isso pesa. A imagem que tenho do Band hoje (com base em diversos casos de fato, nada de achômetro) é que ou você sai muito muito nerd ou sai muito louco. Eu estava na lista dos muito loucos.

Do Etapa não tenho muito o que pontuar sobre o assunto, já fazia tempo, eu já contava e pronto (as vezes). Só teve uma coisa que me deixou um pouco incomodada. No 3o ano, com o vestibular chegando, eu e a minha eterna parceira chamada ansiedade estávamos a mil. Com isso, engordei apenas 24kg em 5 meses, estava uma graça com calça 42 para 1,63m. Um dia, um professor – não lembro o nome dele, era um escroto de matemática – parou a aula, olhou para mim e perguntou, no meio de 50 alunos, se eu estava grávida. Estava grávida de pizza e hambúrguer, só se for. Mas e se eu estive mesmo, era assim que ele iria abordar o assunto? Com um tom sádico no meio de uma sala com mais 50 alunos? Aquilo foi bizarro. Só me coube falar “não” e não gastar minhas parceiras calorias com ele.

Contei para algumas pessoas no Etapa, mas não para todos. Na GV eu já contava quando alguém me perguntava, sem rodeios. Muita gente que perguntava eu já sabia que sabia a verdade, mas me fazia de besta.

Meu ponto com esse texto todo é tentar entender por que tem escolas que lidam tão mal com uma doença como a depressão. Uma criança/adolescente passa muito mais tempo da vida na escola do que em casa. Eu entendo que o papel da escola seja de ensinar, não educar. Educação vem de casa, mas, vamos lá, não estamos tratando com robôs. Dentro de uma escola existem diversas esponjinhas em formação, a criançada absorve tudo ao seu redor e, se não forem devidamente orientadas pelo o que acontece, saem absorvendo tudo e de uma forma toda torta. Quando a menina do Band se jogou do 18o andar, a lembrança que eu tenho de comentários é: “Ah, ela estava bêbada e com medo de levar bronca dos pais porque chegou bêbada”. Cresci tendo certeza daquilo. Deveriam ter explicado o que era depressão, como pedir ajuda e afins. Quando chamaram os meus amigos para interrogar, ninguém ali estava preocupado com a saúde mental dos alunos, estavam com medo de como estaria a reputação da escola. Toda segunda feira eu tinha aula de orientação sexual na escola, era super vanguarda na época. Falar de sexo para crianças de 11 anos pode (sim, concordo que pode e deve), mas de depressão, não?

As crianças precisam de orientação para tudo, TUDO! Não adianta criar numa bolha achando que está protegendo porque essa criança vai crescer e estourar essa bolha sozinha e conhecer o mundo sozinha de uma forma toda atrapalhada, já que não teve uma base preparatória para absorver da melhor forma possível (dado que não da para falar em certo ou errado) tudo que lhe foi exposto.

Oswald de Andrade, você mora no meu coração.

Música do título: Another Brick In The Wall – Pink Floyd

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