“Você é a Ovelha Negra da família”

Sou a filha caçula do meu pai e filha única da minha mãe. Décima quarta neta do lado materno – de 23. Sétima do lado paterno – de 7. Conheci meu irmão aos 8 anos e minha irmã aos 10, mas se tem uma coisa que nunca fui foi sozinha. Com tantos tios e primos, ficar sozinha nunca foi uma opção.

Família gigante, mas, acima de tudo – até das loucuras – unida. Só nós podemos falar de nós mesmos, ai de quem ousar fazer algum tipo de comentário. E foi dai que veio boa parte da força para superar tudo e, hoje, falar abertamente sobre e até mesmo fazer piada a respeito dias depois do ocorrido (mesmo). Com eles tive uma infância incrível, sempre cercada de primos, amigos e amigos de primos. Era tudo em bando. Viagens, brincadeiras, brigas e afins. Nunca soube o que era bullying, o que era chegar chorando em casa, o que era me reprimir por alguma zoeira – mesmo tendo orelha de abano, o que gerou diversas piadas das quais eu mesma fazia. Talvez tenha até sofrido bullying, mas sendo a caçula “da minha geração” dos primos, era fichinha perto do que tinha de brincadeiras na família. Em resumo, tive uma infância incrível, divertida e leve.

Vivendo numa família tão alegre e para cima, que passa por diversas dificuldades, mas nada parece abalá-los, imagino o quanto deve ter sido – e talvez ainda seja – difícil entender o que aconteceu comigo. Independente de entender ou não, sempre respeitaram, apoiaram, ajudaram, ajudaram, ajudaram, ajudaram e ajudaram. Cada um do seu jeito, cada um da sua forma, cada um como pode, sempre ali – e aqui –  comigo.

Nunca me julgaram. Sempre fui a “patricinha” da família – mesmo sempre estando no meio da zona, chorava para ir tomar banho de mangueira no quintal (e a minha mãe tentando entender por que eu queria atravessar a cidade para tomar banho de mangueira sendo que tinha uma piscina gigante no prédio), queria usar as roupas dos meus primos mais velhos, dormir no colchão da sala. Dormir na casa da minha tia era incrível porque podia ficar sem tomar banho. Dormir na outra era demais porque meu tio contava história para dormirmos. Dormir no meu tio era o máximo porque era a molecada toda amontoada na sala. Falando em sala, montar cabaninha com edredom e cadeiras então era o auge do final de semana.

Nunca me faltou nada, por mais clichê que essa frase possa soar. Nunca faltou bens materiais, nunca faltou companhia, nunca faltou diversão. E, mesmo assim, eu quis, aos doze anos, acabar com a minha vida. E é ai que mora a grande incógnita. Afinal, por que?

Excesso de cobranças? Talvez, mas seria então uma auto cobrança? Seria não me sentir encaixada em nenhum ambiente, dado que o meu dia a dia na escola, no prédio e em casa era de uma forma e finais de semana e férias completamente diferentes? Hoje parece algo sem grande impacto, mas para uma criança isso pesa, e como. Mas teria alguma “solução mágica” para isso? Não. E nem queria que tivesse. Seria sentir que “a minha existência” fosse um peso? Talvez também. A pseudo “bastardinha” – como dizem, a patricinha, a criança que pensava antes de responder quando alguém perguntava se eu tinha irmãos (era complicado explicar que eu tinha mas que não os conhecia). Eu sabia que tinha tudo ao meu dispor e me sentia obrigada a retribuir por aquilo, mas, como uma criança, não sabia como, tinha medo de decepcionar. Como uma criança decepciona alguém no nível que passava na minha cabeça na época? E como explicar isso para as pessoas? Sabia que iria escutar um “você está viajando, Carla” e sabia que não iriam me levar a sério assim como eu não levaria o que me falassem a sério, pois partia do princípio que não me entenderiam de fato.

Sempre fui muito intensa e “madura” demais para minha idade. E isso não é bom. Hoje vejo que devemos viver no nosso tempo (sim, mais clichê, mas é verdade). Se tem 10 anos, tem que viver a vida de uma criança de 10 anos e pronto. Eu não, sempre agi como alguém uns anos mais velha. Com isso, não me sentia encaixada no contexto das crianças da minha idade e também não dava muito para me relacionar com as mais velhas. Com isso, por mais cercada que sempre estivesse, sempre me sentia sozinha. Nunca estava de fato, mas o sentimento sempre foi esse. E como por isso para fora? Como falar? Como mudar? Difícil.

A sensação de “não fazer parte” era tão bizarra que até me comparar com meus pais era rotina. Comparava se tínhamos rostos iguais, mãos iguais, jeitos iguais. Até o fato de ter olhos verdes já foi questionado, dado que ninguém da minha família, de nenhum dos lados, tinha – sempre para mim mesma, o que não resolvia nada. Quando achava traços iguais era uma festa – interna. Bizarro, né? Mas a coisa mais parecida estava lá para não me deixar doidinha, a clássica orelha de abano dos Hidalgos. Loucura ficar feliz por ter a orelha zoada igual ao meu irmão, que era igual ao meu pai, que é igual ao meu bisavô (informação besta, mas eu e o meu irmão operamos, meu pai e meu bisavô, não)

E assim aquele sentimento de “ovelha negra do mundo” ia se intensificando, temperado com a minha própria intensidade.

Música do título: Ovelha Negra – Rita Lee

PS: em momento algum estou me referindo ao bullying como algo leve e muito menos falando que brincadeiras em família não afetam as pessoas. No meu contexto, sempre foram saudáveis, mesmo.

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